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29 de out de 2011

PODE O CÂNCER SER UMA DÁDIVA?

 

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PODE O CÂNCER SER UMA DÁDIVA?

O ator Reinaldo Gianecchini gravou um vídeo no dia 6 de outubro para uma associação de pacientes, a Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia). O valor do vídeo é a sinceridade que ele transmite.
Sentado diante da câmera, sem nenhuma super produção, Gianecchini abre o coração. E, por isso mesmo, toca o coração de quem o escuta. São cinco minutos que fazem a gente ganhar o dia.
Em um dos trechos, ele diz: “Acredito que (o câncer) pode ser uma dádiva. Eu e minha família, ao longo do processo, fomos nos iluminando. Buscando uma força que a gente não sabia que tinha. Além disso, recebi do público um amor tão tocante.”
Não é a primeira nem a segunda vez que ouço um paciente de câncer dizer que a doença pode ser uma dádiva. É uma afirmação que sempre me causa estranhamento. Admiro os sentimentos e a fé de quem pensa assim. No entanto, cá com meus botões, penso que se a doença é um presente, prefiro ficar sem essa dádiva.
Não há nada de sobrenatural na gênese do câncer. Ele é decorrente do crescimento descontrolado de uma única célula. A divisão celular permite que nós possamos crescer, nos adaptar, recuperar os tecidos lesados, viver.
O mesmo processo, quando escapa ao controle, permite que as células de câncer cresçam, floresçam, se adaptem. Permite que o câncer viva ao custo de nossa vida. O oncologista Siddhartha Mukherjee resume isso muito bem no livro O imperador de todos os males: uma biografia do câncer(Companhia das Letras): “Se buscamos a imortalidade, a célula de câncer também busca”.
“A célula de câncer é a mais perfeita versão de nós mesmos”, diz o americano Harold Varmus. A descoberta de que o câncer é causado por mutações genéticas ocorridas nas células normais rendeu a ele e a J. Michael Bishop o Nobel de Medicina em 1989.
Para vencer o câncer, portanto, é preciso encontrar formas de prevenir essas mutações. Por que elas ocorrem? Em primeiro lugar, estatisticamente, por causa do cigarro. Ele causa as alterações genéticas responsáveis por 35% de todos os casos de câncer. Outros 15% são provocados pelo álcool. Depois vêm os vírus, a poluição e outros fatores. Apenas 5% são provocados por alterações genéticas hereditárias.
Como se vê, todos estamos sujeitos ao câncer. Acontece com os velhos, com os moços, com os bebês. Com os ricos e com os pobres. Com os altos e magros e com os baixinhos e gordinhos. Com os sedentários e também com os atletas (ainda que em menor proporção). Com os feios e com os bonitos.
É um processo puramente biológico. Pode acontecer comigo e com você, como aconteceu com Giane. Ele menciona, no vídeo, que jamais imaginou que pudesse passar por isso porque é uma pessoa alegre, que não guarda mágoas.

Estamos todos no mesmo barco. Quem ainda não teve um caso de câncer na família provavelmente terá um dia. Por isso é útil saber o que pode ajudar a amenizar o sofrimento do paciente e das pessoas queridas que, de certa maneira, adoecem junto com ele.
Pois é, Giane, o aparecimento do câncer também não é determinado pelo psiquismo. Não da forma como se acreditava no passado. É doença que afeta os magoados, os pérfidos, os maus, os bons, os otimistas, os cativantes.
A regra número 1 é que não existe regra. A religiosidade de Gianecchini parece representar um porto seguro para ele. Mas a fé só faz sentido para quem tem. Não pode ser imposta. O doente que acredita em Deus ou em qualquer outra força superior merece tanto respeito quanto os pacientes que não acreditam.
Não é raro ver um doente receber uma visita no hospital e ser obrigado a ouvir do visitante que uma outra pessoa foi curada de câncer porque Deus a achou merecedora. É triste, para quem ouve, testemunhar a essa divisão drástica do mundo: de um lado, os merecedores. Do outro, os que não merecem. Desse lado, os que têm valor. Do outro, os que não valem nada.
Isso não pode ajudar ninguém. O que ajuda é o respeito. Por tudo aquilo que a pessoa é e por tudo o que ela pensa e sente.


Escrito por Cristiane Segatto
Texto retirado da Revista Época

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